Tagarelávamos alegremente nem sei bem de quê. Talvez sobre as qualidades do gelado artesanal de morango, para lá de maravilhoso, com que nos banqueteávamos na esplanada com vistas para a praia e para o pôr-do-sol.
Estávamos de mãos dadas em cima da mesa, despudoradamente, como se fosse tudo normal: que é! Sem pensarmos no assunto.
De repente tenho a visão de um carro igual ao da minha mãe e de três pessoas lá dentro a acenar muito alegremente na nossa direcção... Ainda a refazer-me, declarei fingindo-me serena e tentando o humor para evitar o pânico: olha! São elas: enlouquecidas a dizerem-nos adeus! E nós de mão dada...
... e nós acenámos também, muito...
Passámos os últimos três dias a dormir no sótão com a minha mãe no andar de baixo. Estranhamente, ela não perguntou se a Isa precisava de lençóis de cama apesar de haver duas camas, nem de lençóis de banho... nem tampouco perguntou quem é a Isa... nem fez perguntas...
O que acham?
Ela não sabe que dormimos as duas na mesma cama, pois não? Nem lhe passa pela cabeça que dormimos juntinhas mesmo com calor, pois não...?
Estou agora a escrever isto na tal esplanada com outro pôr-do-sol e outros gelados de morango. Eu muito entretida no meu silêncio apimentado com as palavras no teclado e elas estão há mais de meia hora que não se calam uma com a outra...
O que acham? Ela não sabe...?
Nós também temos a certeza que ela está fartíssima de saber desde a primeira vez que nos viu juntas.