10.8.14

Rasguei um livro em fanicos...


Sentei-me numa livraria-café que há em Vila Franca de Xira, onde deixo o meu carro sossegadamente estacionado e apanho o comboio para o norte. É a "nova" livraria da Chica. A "velha" morou por baixo do PCP durante décadas, mas por motivos que me são alheios foi para a Rua Direita, onde aliás se está muito melhor. Tem uma parte de café, mesas, cadeiras e sofás. A bagunça vai de mal a pior... Mas o que me interessa é que ali posso sentar-me horas a fazer tempo, posso ir à casa-de-banho e beber um café (se não houver silêncio uso os phones) e está sempre uma temperatura agradável seja inverno ou verão. Poderia ser uma livraria de sonho, mas não é... a bagunça vai de mal a pior...

Comecei a ler um livro que não comprei ali, mas na feira do livro por uma pechincha: "A minha tia é uma baleia". Ganhou prémios... A primeira coisa que fiz quando pousei os meus haveres no quarto da casa da minha mãe foi rasgá-lo em fanicos...

Estava-me a criar um pesadelo nervoso em escalada com o pior dos pedófilos: o pai...

Eu claro nunca gostei de cenas de verdadeiro terror do tipo "Silêncio dos Inocentes"... fazer suspense terrorífico com um assunto como a pedofilia é extremamente deprimente e angustiante. Penso que não precisa de ser assim para sensibilizar ninguém para o problema. Aliás, este tipo de escrita do meu ponto de vista tem tendência para me empedrar: reacção saudável do meu corpo para não me deixar matar a alma lentamente.

Então, após uma pilha de nervos cada vez maior com o livro, uma senhora que passou a primeira parte da viagem de comboio a fazer chamadas telefónicas para a carruagem inteira ouvir e com o cheiro e fumo a tabaco do carro da minha mãe que tive que aturar durante uma dúzia de quilómetros, perdi as estribeiras e rasguei-o em fanicos para que não tivesse sequer a tentação de voltar a ele...

E assim matei um livro... premiado... e ao contrário do que poderia supôr não me senti culpada, mas antes profundamente aliviada... Se calhar também uma forma de "matar" também aquele pai para não permitir que ele torturasse mais aquela miúda...

Talvez tenha havido muitos livros pela vida fora que não mereceriam outro destino. E eu já não estou para aturar leituras dolorosas, porque enfim é um livro e tal. Isso do endeusamento dos livros acabou para mim há muito muito tempo. E ainda bem.