22.11.15

Carta de Natal à minha mãe e ao meu irmão



[Carta adaptada da real que começou numa outra anterior, porque eu este ano não pedi prendas...]


Aproveito para dar um "recadinho" sobre o Natal 2015, porque eu não vou fazer discursos pessoais "insanos" à frente da familia. A minha melhor forma de comunicar é escrever. Portanto, é assim mesmo que devem disponibilizar-se para me ouvir, por favor.

Sabem, o Natal este ano já passou. Foi na 6ª feira passada, mas vocês nem sequer abriram a boca, nada. O silêncio é uma boa trampa de prenda. Vocês entristecem-me e às vezes até me envergonham enquanto teoricamente eu deveria ter orgulho das pessoas que são a minha família! Fingem todos que eu não sou lésbica, incluindo os avós, como se isso fosse um grande pecado. Nunca percebi se para o P. (irmão) é um não assunto, ou é tabu e não se fala e pronto, como tantos outros tabus. É assunto profundamente tabu para o resto da família (com excepção da R. que que teria sido minha madrinha de casamento, caso não tivesse tudo terminado para sempre, porque foi nossa testemunha desde o primeiro minuto em que nos conhecemos). Eu ter uma namorada é uma situação inconveniente, confessa mãe! Confessa! Mais vale dizer logo de uma vez. Eu aparecer com uma namorada é grande chatice porque as perguntas surgem e tu simplesmente responderes com toda a naturalidade "é a namorada da Rita" não te serve, porque para ti não é natural. És tu que tens um problema para resolver Mãe, não sou eu! Seria útil para a tua saúde mental resolvê-lo de uma vez para sempre. Não sei como, mas penso que tu descobrirás se te esforçares.

A família inteira finge outras coisas também no meio de um silêncio ensurdecedor. Também fingem ou não sabem mesmo - porque talvez andam naturalmente distraídos com as vossas vidas atarefadas - que eu sou uma discreta activista dos direitos humanos para as pessoas Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgéneros. Como de costume nestes dias, em que se avança mais um bocadinho, ou mais um bocadão, sobre os direitos humanos de todas as pessoas neste país. Nada. Zero palavras. Nem um sms, nem um telefonema. Pufff! Tal e qual como no dia em que o casamento para toda a gente foi aprovado. Na sexta-feira passada, ou até ontem, nem uma mensagezinha a dizer quanto ficaram felizes por todas os Filhos deste país poderem a partir de agora terem oficialmente Mães e Pais no papel. Eu nunca deixo de me surpreender com este silêncio... a minha ingenuidade e positivismo perante a vida se calhar não me deixa morrer a esperança que talvez fosse acontecer ao menos desta vez...

Mas também o que é que esse assunto me interessa tanto se eu não vou ter filhos, não é? Acho que o P. nem sabe (pelo menos por mim) que eu sei há vários anos que biologicamente não posso ter filhos, porque os meus óvulos saltam para fora da trompa e explodem coitaditos. Além disso, mesmo que pudesse, tenho 39 anos e sou contra pais biológicos a terem filhos depois dos 37 (a probabilidade de serem crianças com graves deficiências é elevadíssima), além que em vez de serem pais, já serão mais avós do que pais. Portanto, este assunto interessa-me muito, porque sou acérrima defensora dos Direitos Humanos de todas as pessoas, façam elas amor com quem quer que seja: eles, elas, etc., se for de comum acordo.

Nem fazem ideia de quanto eu chorei de felicidade, sozinha como de costume, depois de almoço quando cheguei ao computador e verifiquei que era verdade! Adopção total! Pais e Mães para toda a gente, com todos os Filhos com direito a terem cartões do cidadão com todas as informações verdadeiras e reais lá incluídas, direitos a segurança social decente, seguros de vida, etc, direitos e deveres parentais totais! Esses pais e/ou mães nunca mais perderão noites sem dormir aterrorizados, porque se morrerem, o outro que não é pai/mãe biológico não se arrisca a tirarem-lhe o Filho e a perdê-lo para ser enterrado em qualquer inferno de casa para adopção. Esse terror acabou-se FINALMENTE! O Natal 2015 foi no dia 20 de Novembro!
Agora, sobre o nosso natalzinho a fingir... 

P., declarei esta semana à mãe que só ia ao Natal por obrigação, aliás como é assim há muitos anos. O que tem que ser, tem que ser e será. Eu não quero matar a avó de desgosto se não estiver lá.

Mãe, o P. já me ofereceu a prenda de Natal dele ao visitar-me ontem com a Alice. Foi pena não termos ficado em animada conversa e rabiscos de lápis-de-cera com ela tarde dentro, mas havia muitas coisas que arranjar aqui e viver pela tarde fora noutros sítios...

Caso, ainda vos apeteça dar-me prendas depois deste e-mail muito duro e sincero, afinal não quero aquele livro que tinha pedido (o autor anda a armar-se em bom e acabou-se-me a paciência para ele). Quero outro, de um amigo: Angola: Muxima, desenho e texto. Estou à espera que ele me diga se o devem comprar a ele, fazendo transferência com os portes dos ctt e com uma devida dedicatória fofa ou no website http://www.wook.pt/ficha/angola-muxima-desenho-e-texto/a/id/16786204 e ele depois dá-me a dedicatória quando estivermos juntos.

Gostava de ter os chinelos nº 42!! Vou dizer outra vez são nº 42 e nenhum nº abaixo desse!! Também se ninguém mos der eu vou lá buscá-los.

Também me podem dar um envelope com um talão do euromilhões de 2 euros lá dentro - acho isso giro! Se ganhar o primeiro prémio, para além de resolver todas as porcarias legais (consequência da morte repentina do meu irresponsável e megalómano pai) que nos matam um bocadinho todos os dias há 20 anos, nunca mais passamos o Natal num país católico. Vamos todos juntos visitar os países do Buda durante uns dias e não trocamos prendas que no fundo não fazem falta nenhuma. Ou então, vamos em busca de Deus para a Patagónia. Seria maravilhoso. Compramos roupa polar muito quentinha e vamos descobrir finalmente onde Deus mora, que é no fim-do-mundo, no Silêncio e nos pinguins! Seria muito saudável mandar este Natal às favas com o qual temos todos que gramar.

Estão proibidos de me dar roupa!!

Já começaram a dar cabo da cabeça do LS (o advogado da familia) por mim? Volto a repetir que é do mais mal educado que há - para me responder à minha situação da minha conta bancária que eu quero fechar! Estou à espera de qualquer resposta há 2 anos e 3 ou 4 e-mails depois, aos quais finge que não recebe. Essa é a única prenda de Natal a sério que quero: fechar aquela conta bancária.

De resto quero paz e sossego e que não me chateiem com merdas como aconteceram no ano passado. Foi um Natal vergonhoso e desgostoso não fosse ter ficado a namorar com a Alice na manhã de natal.

Vocês não receberiam um e-mail destes se não tivessem determinados comportamentos comigo. O Silêncio ruidoso é a pior coisa para matar a relação entre as pessoas. Vocês às vezes dão cabo de mim e nem fazem ideia. Andamos nisto há 30 anos. Às vezes receio que já vão todos tarde demais comigo nas emoções, quero eu dizer, porque eu sinto que na verdade já deixei de querer partilhar determinadas partes da minha vida convosco, porque vocês não têm qualquer empatia com as áreas ou temas mais importantes para mim ou com a minha maneira de Viver a Vida. Tentar fingir que têm essa empatia para ficarmos todos "bem" não serve. Eu prefiro a verdade crua na minha cara, em vez do silêncio aterrador entre nós, que nos assola a todos desde sempre.

E que haja saúde e coragem para as mais porcarias que nos irão acontecer na Vida, o que é normal na vida de toda a gente.

Beijinhos e Santo Domingo

Rita