16.10.13

Desenhar é viajar por dentro e peripécias para salvar esboços para capa de livro


Os miúdos anseiam por cadernos, lápis e canetas de feltro. Os pincéis são tomados por deuses... mas um dia todo esse fascínio desaparece para parte incerta e são raros os que o reencontram...



Esforço-me para divulgar o desenho de observação, mesmo sem ter resultados muito visíveis, porque é sobretudo uma forma de tentar arranjar boa companhia para rabiscar por aí...

Talvez as pessoas adultas achem mesmo que reaprender a desenhar não lhes faz falta nenhuma, mas pagam balúrdios inacreditáveis para terem aulas de yogas e meditações e etc, em vez de andarem por aí a alimentar os sentidos com um caderno e uma caneta para eternizarem qualquer cena deliciosa do dia-a-dia, rabiscando-a e cravando-a irremediavelmente para sempre na memória eterna. Não são precisos mais do que 15 a 20 minutos por rabisco. Podem ser minutos de silêncio interno: um tipo de meditação.

São as consequência maiores do desenho de observação: os locais onde desenhámos, os cheiros, os sons, as cores, os sabores, as texturas e o silêncio interior que sentimos permanecerão para sempre na memória.

Desenhar é viajar por dentro. É abraçar a reflexão sobre tudo, aproximar-nos e afastar-nos de nós próprios. É gestual, é uma provocação ao estímulos dos sentidos... todos! Até o paladar. Desencadeia a associação de ideias e memórias umas atrás das outras.

Para além do esforço para tentar angariar almas que venham comigo partilhar disso e eu com elas, tinha a secreta esperança de que um dia me caísse um pedido para a capa de um livro... Dificilmente seria mais inesperado, dificilmente voltará a ser ser tão prazenteiroso e divertido.

No dia em que me convidou rabisquei, rabisquei, rabisquei... horas naquilo. Aquele desafio despertou-me. Estava desesperada para rabiscar. Quanto mais lia as palavras dela mais queria dirigir a minha figura imaginada e esguia - cada vez mais esguia - para o céu. Primeiro era apenas para o céu (como que num desespero para respirar e sentir-se livre dos pesos que prendem o corpo na Terra). Mas depois li metáforas para Voos e rabisquei uma espécie de espiral intuída para o refugio da Lua. Cheguei a sentá-la nela - na Lua - mas não me pareceu que combinasse bem com uma alma que imagino nunca assenta a caneta com que escreve, ou o teclado que lhe alisa as pontas dos dedos de tanto bater. Espalhei papelinhos rabiscados por todos os lados: na secretária, na agenda, no bloco... rabisquei e voltei a rabiscar uma e outra vez. Nenhuma postura era perfeita...

Aconteceu-me uma cena hilariante... claro...

Estacionei o carro e saí... A mochila estava aberta quando a puxei para o ombro... e foi assistir ao meu terror pairando também ele com as minhas 15 folhinhas de rabiscos a apanharem boleia das correntes de ar. As minhas preciosas folhas de papel rasca que representavam as palavras dela com letra inclinada para a direita, tal como havia previsto, iam a voar num reboliço pela rua fora. Larguei a mochila e deixei a porta do carro aberta. Desesperada fui capturá-las tais borboletas irrequietas e eu sem rede... Passou-me pela cabeça que me iam roubar a mochila, bater na porta, roubar o carro, mas nem mesmo esses pensamentos me permitiram deixar de as perseguir... Apanhei-as TODAS! E continuei horas e horas a fio naquilo, mas passei para as modernices futurescas do desenho digital...